Salvador me abraça sorrindo

Depois de alguns sustos e medos, aqueles que o Pelourinho e suas vielas causam no viajante despreparado, o Pelourinho me conquistou. Na verdade, Salvador me conquistou. Havia visitado a cidade há muito tempo, e todo o clima, todo o som, toda a cultura brasileira com gelo e limão se apresentou como uma magia aos meus olhos, por vezes mais vidrados que o de muitos estrangeiros.
Não sei ao certo se foram as bandas de percussão, ou os capoeiristas, se foram as praias ou os belos prédios, mas sei que me apaixonei pela Bahia. Apesar da alegria do baiano ser, por vezes, para o turista, um comercial puro e simples de um serviço nulo e preguiçoso, me encantei com os que me parecem sinceros em seu conversar e em seu sorrir.
Me encantei principalmente com as casas que olham para o mar. Com aquelas perto do MAM, com sua praia e sua via de observação daqueles que se ocupam em ver a arte, pai e filha, amigas, famílias. E me encantei com as casas entre o Centro Histórico e o Bonfim, sujas de tinta e brancas em pó.
Me encheu de uma graça estranha e exclusivamente minha o pensar no poema que o mar coloca nas vidas daqueles moradores, humildes e singelos e me prendeu a atenção uma senhora que, no ônibus, pedia ajuda para comprar remédios que combatessem seu glaucoma há muito diagnosticado. Seu discurso era mais ou menos assim:
“A ajuda que lhes peço, peço de coração, eu sou filha de deus, como todos vocês. Vocês aqui viajam, eu viajo pela vida. Me desloco pedindo ajuda, pedindo esperança em vocês. E se um já olhar para mim, escutar uma palavra, isso me dá forcas para continuar minha jornada.
Eu não moro na rua não, alugo um quarto bem pequeno, mas que me cabe muito bem. Comer eu como sempre, muitas vezes antes até de vocês, mas não presto pro trabalho que ver eu já só consigo pouco.
O que eu peco é ajuda e compreensão: enxergar eu mal enxergo mais viver eu vivo bem, e posso até dizer que sou feliz.”
Eu sorri com seu pedido poético e sincero, e não consegui mais parar de pensar nas casas com vista para o mar, que no Rio tanto se destacam mais que tem, na Bahia, sua honra literária.

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