Voar sem asas

Eis o motivo da minha última inspiração para escrever: Das milhares de vezes em que tive a oportunidade de deslocar-me pelo planeta de avião (muitas, afinal em minha família festeira de classe privilegiada ocorria com freqüência de reunirmo-nos para encontros, e dada à distância em que nos encontramos, sempre, uns dos outros, e à relação custo-benefício acabávamos optando sempre por poucas horas no ar ao invés de longo tempo em terra.) pouco refleti sobre todo o processo e toda a gambiarra que acontece num aeroporto e no avião. Hoje, devido ao longo tempo de espera entre vôos e ao extremo olhar concentrado e observador que meu coração apertado me proporciona, parei para perceber diversas coisas singulares do local e do momento.
Aconteceu primeiramente quando, sentada numa cadeira (daquelas grudadas umas nas outras, quadradas e desconfortáveis) me deparei com um homem que se levantava de seu lugar e tomava posto em minha frente, a dois palmos de distancia que meus olhos mediram sem precisão. Ele, no entanto, não se sentava ou em pé me aguardava com atenção. O rapaz se levantou e preguiçosamente se deslocou até seu novo sítio, onde se deitou no chão. Sem olhar para trás, sem a agonia e o nervosismo da insegurança de quem faz o incomum e o inesperado. Deitado ele se alongava e estremecia no chão fazendo mais agradável as horas de viagem que ele já tinha talvez ou que em breve viesse a ter.
Ao final de todo seu exercício corporal, com sua barriga levemente a mostra, ele estirou-se por completo e olhava o teto, em reflexão. Acho que não preciso dizer o quanto me assustou todo o processo, que embora parecesse longo, não tomou 20 minutos de meu tempo. Depois disso o rapaz se levantou, ajeitou suas calcas, sua blusa torta, e voltou ao seu lugar. Nada de olhar para trás, nada de verificar se alguma sujeira desagradável havia se prendido em sua roupa recentemente lavada. Ele tinha consciência de si, e somente de si. Qualquer pessoa rindo, ou crianças gritando, conversas em línguas estranhas, nada disso tirava a atenção do rapaz de seu SPA de viagem pessoal.
Não sei se ele chegou a considerar, ou ao menos a perceber a quantidade de filosofia (por assim dizer) apreendida na sua atitude. Acho que talvez ele não tenha nunca parado para pensar e refletir sobre como suas ações e pensamentos são incrivelmente individualistas, e desconsideram, em todos os âmbitos, o senso coletivo e a coerção social. Ele é maior que a sociedade, ele é ele…
Mais uma vez a aeromoça me interrompe o pensamento perguntando, maquinalmente, se eu gostaria de mais alguma coisa, assim eu olho para o lado, e meu olhar me prende nos senhores italianos que falam alto e bebem cerveja alemã de graça (de graça: sensacional!), nas freirinhas que falam alemão, no homem de negócios que vê o filme infantil o qual oferece a companhia aérea neste vôo. Fico me perguntando o tanto de ciência (ciência diriam os positivistas, mas dizer pensamentos é vago e me falta outra palavra.) que existe em cada uma de nossas ações, e que o atento observador tem como curioso aprendizado.
No processo de voar sem asas existe história humana, existe engenharia, existe paciência, vontade e coragem. O avião, no entanto, deixa de ser máquina e transporte para se tornar amostra de pesquisa social e curiosidade antropológica se você abrir os olhos.
Quem sabe agora não me observa alguém em que meu escrever causa diferentes sensações e pensamentos?

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