Eu e ele dávamos as mãos

Hoje pela manha, enquanto tentava estudar sobre a nova construção fábrio-construtivista em Moscou que ocuparia o lugar de uma garagem de ônibus para criar o mais novo e maior museu da história judia, coloquei uma música, como de costume, que acompanhasse meu humor e pensamento.
Escutava Cesaria Evora. Um ritmo português, um sotaque delicado, tudo me aconchegava na manha fria e de estudos arquiteturais em novas – sempre novas – línguas.
Então que, caminhando pelo quarto, repetindo os dados, os nomes, as cores e as formas em minha cabeça, toca São Vicente. Os delicados sotaques passam a ser acompanhados pela veluda voz de Caetano Veloso. Depois de quase me desmanchar em um aquoso eu, me deixei guiar pela voz, que nunca antes havia eu ouvido com tanta paixão.
Minha mente pôs-se a dançar no quarto, pois meu corpo já não podia de cansaço, e eu não mais pensava em ônibus, garagens, ou famosos arquitetos russos… Compreendi, por um instante, talvez, o que a memória proustiana me permite.
Meus ombros já não pesavam mais, meu semblante iluminava-se e minha alma esvoaçava-se em pulos conforme as notas da doce voz de Caê. Um frenesi de nostalgia encheu dia, no único momento em que toquei o Brasil, com meus bracos de cristal.
Ao voltar minha concentração novamente aos 17 mil m2 de história judia, já podia, novamente, sentir o texto como as batidas do meu coração. Voltar ao passado e sentir é permitir-se. Permitir-se ser maior.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: