Por que ser feminista?

[Não tão brevemente sobre mim…] Quando entrei na universidade, tinha pouquíssimo contato com o feminismo em qualquer uma das suas formas – seja o militante, o teórico-acadêmico, ou o feminismo quase intrínseco que algumas mulheres carregam. Confesso, portanto, que sinto uma ponta de inveja quando escuto ou leio que minhas e meus colegas de luta se sentem feministas desde muito cedo na infância ou que tem uma experiência quase revolucionária na adolescência que xs fez feministas…

Eu, pelo contrário, lembro-me muito bem das conversas que tinha com um amigo petiano em especial, na qual eu criticava a linguagem inclusiva e o (então considerado excessivo) recalque lingüístico de algunxs professoraes da Universidade de Brasília. Lembro-me de concordar com o meu pai sobre a não necessidade de se afirmar feminista num mundo onde o que importa não é quem você é, mas o que pensa, faz, fala… Lembro, acima de tudo, de afirmar veementemente que a fome e a miséria são problemas muito maiores do que a igualdade entre os gêneros, e que a pauta feminista portanto, não fazia sentido para mim.

Lembro-me de tudo isso com um tanto de remorso de mim mesma, mas com a certeza de que o meu caminhar na construção de uma feminista é parte significativa de quem eu sou como mulher e sujeito, dentro e fora do movimento, dentro e fora da academia. Hoje não consigo me imaginar desvinculada de todo um pensar que construí em salas de aula e na convivência diária com pessoas maravilhosas, muitas delas ex-petianas também. Toda essa reflexão, essa introspecção de me entender enquanto feminista, surgiu em um momento muito oportuno (e talvez por causa dele): quando me deparei com espaços diferentes daquele que participaram ativamente na minha sensibilização para com o feminismo.

Foi nestes espaços, nos quais nada via de feminismo (pelo contrário, foi me deparando com o machismo velado e desvelado), que passei a realmente pensar em por que ser feminista e a valorizar tal posicionamento meu como um projeto político para o mundo. Assim, chego, (finamente!) na minha pergunta inicial… Por que, afinal, deveríamos ser feministas?

Devemos ser feministas, homens e mulheres, negrxs, brancxs, homo e heterossexuais (mas também todas as outras pessoas que não se enquadram nas extremidades destas dicotomias, ou entre outras várias que não citarei aqui).

Devemos ser feministas porque acreditar, como eu acreditava, que nosso mundo, nossa sociedade, é um espaço onde o que importa não é quem você é em termos de gênero ou raciais, por exemplo, é ignorar a realidade que se mostra a nossa volta em termos objetivos, para não mencionar a realidade subjetiva e as exclusões diversas nas esferas mais invisíveis existentes.

Devemos ser feministas porque o feminismo também pensa a fome e a miséria e a violência e a opressão em todos os termos, em todos os níveis, e para com todas as pessoas. E pensa, além do problema, em soluções para além da lógica masculina de redistribuição de recursos, por exemplo; pensa em soluções para a construção da autonomia dos sujeitos, para o empoderamento, para a mudança verdadeira da sociedade.

Devemos ser feministas porque o feminismo é um ponto de partida para pensar o mundo (academicamente ou não) de outra forma, desconstruindo os parâmetros que temos a partir não somente da crítica dos posicionamentos ou conceitos, mas da reflexão acerca de como estes conceitos, parâmetros, posicionamentos e afins foram construídos e internalizados por cada um de nós.

Devemos ser feministas porque ser feminista é um exercício constante de questionar seu próprio lugar de fala e de repensar o quanto da nossa linguagem molda o nosso mundo e o quanto do mundo será transformado por meio da nossa linguagem.

Devemos ser feministas porque o machismo não só mata, mas também oprime; e o faz não só com as mulheres, mas com homens, com as crianças, com homossexuais e com as famílias. Por que o padrão estético e a expectativa social de um comportamento determinada generificadamente é agressiva com todxs e em todo o momento.

Devemos ser feministas, finalmente, por acreditarmos em um mundo diferente, em uma democracia diferente, em uma lógica de pensamento diferente, nos quais os valores sociais são outros, os quais pregamos mais justos, inclusivos e, acima de tudo, mais convergentes com um mundo no qual viver seria, simplesmente, mais prazeroso.

*Levem em consideração, ao ler o texto, que o feminismo é, como a democracia, um conceito em disputa. Existem muitos feminismos (e não só na teoria!), muitas agendas, muitas mobilizações, muitas contradições, muitas discordâncias… Trato aqui de uma visão bastante pessoal que foi, contudo e como expliquei, construída por meio dos espaços dos quais participo e em contato com as maravilhosas pessoas com quem tive (e tenho!) o prazer de conviver – a elas um imenso obrigada!

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2 comments

  1. Adriana

    Acredite, mil anos depois da sua postagem eu cheguei à este blog. Uma pergunta: Sua opinião permanece a mesma?

    • Olá Adriana,
      Sobre o porquê devemos ser feministas sim, minha opinião permanece a mesma! E também acho que o feminismo é um conceito em disputa, por isso, são sempre feminismos (ainda que um ou outro não me represente exatamente).

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