Responsabilidade para todo mundo

Acabei de ler o texto da Socialista Morena, ou, Cynara Menezes, entitulado Não são só os políticos que precisam de ética.

Não, não se trata de mais um “de que adianta condenar os políticos se você pede pro ônibus parar fora do ponto”. Não tratarei, nem ela o fez, de condenar qualquer ação que não seguir a ética e moral completamente como corrupção, em uma espécie de moral kantiana onde a única coisa que interessa é a própria definição de moral.

No entanto, sua responsabilização para além da esfera estatal é bem próximo daquilo que considero desejável.

Você convive com uma série de sistemas, um deles é o Estado, mas existe uma porção de outros. A mídia, a cultura pop, o mercado, o capital, a religião, e o tanto de outras coisas que quiser elencar. Não é mais do que justo cobrar transparência de todos eles? Ou ética de todos eles.

É a crítica da Cynara aos artistas. Na contraposição dos que ela apresenta (Leiam. A crítica feminista, além da qual me refiro, é interessante), tem uma série de pessoas com compromisso com o local, o patrocinador e todo o evento de onde tocam, entra as quais, Gabi Amarantos.

Se dá pra cobrar que o governo tenha ética, mais ainda, que o Estado seja ético, por que não cobrar o mesmo do seu padeiro, do seu fabricante de roupas, do seu supermercado, etc.

Não, não se trata de consumir produtos verdes ou olhar o selo de não uso de trabalho escravo. Aliás, não se trata apenas disso.

Quando as empresas e pessoas públicas apresentam alternativas àquilo que a gente consome, de forma sustentável, elas estão criando mecanismos de renovar aquilo que já existe. O que precisamos é de iniciativas de justiça e responsabilidade ativas, que busquem a responsabilidade, e não que se adaptem a ela.

Isso me lembra um encontro do qual participei, de líderes empresariais mulheres para construir a sustentabilidade. Elas discutiam um novo projeto de marketing e ação colaborativa com os clientes. Foi muito interessante, na verdade. Mas, em determinado momento, um comentarista trouxe para debate a questão de que ele não acredita em responsabilidade social feita a partir da reciclagem de garrafas plásticas. Isso é, especificamente, ele não acredita que o refrigerante está senso ambientalmente e socialmente responsável só de substituir suas garrafas, ou reciclá-las.

Para aquele interlocutor, a empresa seria sustentável se o refrigerante fosse um xarope alocado em um compartimento com fim próprio e o consumidor buscasse, no mercado, a quantidade de xarope que desejasse, e misturasse com sua água ou água com gás em casa, como desejasse, mais ou menos doce, mas usando seu próprio recipiente. Isso não significa só que os recipientes diminuem, mas que você muda a lógica de transporte e de distribuição, além de incluir o maior interessado, o consumidor, na produção.

Enquanto as empresas buscarem renovar o recipiente, e não pulveriza-lo, mudá-lo, ou repensar toda a lógica, elas estarão adaptando o lucro e não sendo responsáveis verdadeiramente, sem o limite do capital. Não basta ajustar um teco para fazer campanha de marketing, é preciso pensar de todo o sistema.

E a nós, cabe cobrar também do sistema econômico que as mudanças sejam verdadeiras.

Por favor, parem de comprar ecobags para salvar o mundo.

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