Perdas raras

É 1951. Elizabeth Bishop (por Miranda Otto) é uma poetisa insegura e tímida, que só se sente à vontade com um amigo, Robert Lowell (por Treat Williams). Em busca de algo que a inspire, ela parte para o Rio de Janeiro, onde deveria passar alguns dias na casa de uma ex colega de faculdade, Mary (por Tracy Middendorf), casada com a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (por Glória Pires). Elizabeth e Lota se apaixonam. Elas se envolvem, enquanto Mary e Lota continuam formadas como família, adotando uma pequena menina.

A trama é interessantíssima, a desconstrução das relações amorosas, de deixar sem ar, a produção, roteiro e fotografia, impecáveis. Mas, à parte da trama, que em muito prende o leitor, o que mais me emocionou no filme Flores Raras, foi a leveza, da parte de Elizabeth Bishop, em sentir sua perda.

Quando ela se liberta da relação de co-dependência que tinha com Lota e volta para os Estados Unidos para lecionar em Nova Iorque, o filme nos surpreende com uma seqüência de cenas leves, quase infantis, da nova vida de Bishop. É o oposto das cenas de Lota, e a grande reviravolta do filme, o fraco que se torna forte, e o forte que se vê igualmente fraco e dependente, e mais vulnerável do que nunca.

As cenas de Elizabeth em Nova Iorque, as cenas da vida dela como ela segue, e inclusive a tentativa e o reencontro dela com Lota são momentos como aqueles de recuperar o ar após uma longa subida de escadas; paz, até no momento da morte, paz.

São momentos daquelas perdas raras, onde o apego ao que o futuro poderia ter sido incomoda quase nada, e só resta o eterno que a memória guarda. É uma arte.

One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Tradução de Paulo Henriques Britto

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

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