Visibilidade – ou por que precisamos dela

É muito difícil dizer o que estuda a ciência política. Dentre teorias, políticas públicas, análises sociológicas, e comunicação, acho que é consenso, no entanto, que ela estuda a democracia. Na verdade, as democracias. Quanto mais você conhece algo, acho que mais esse algo se pluraliza.

Falando de democracias, temos correntes representativas, correntes participativas, correntes deliberativas, e uma porção de outras, as quais não ousaria definir para não incorrer em excessos ou faltas. As democracias discorrem, em grande medida, sobre os espaços de um regime democrático, se arena de discussão, se parlamento, se, se, se…

Muitas outras teorias, no entanto, partem da observação de uma realidade na qual os indivíduos são marcados por inúmeras subjetividades que se formam a partir das suas trajetórias sociais, culturais e psicológicas que possuem especificidades. Ou seja, partem do pensamento de que somos todos muito diferentes.

E somos considerados de formas diferentes pela sociedade. Portanto, pertencer a um determinado grupo social, pode nos favorecer ou não. Nossa subjetividade, formada ao longo da vida, pode ter um efeito positivo ou negativo em diferentes pessoas e em diferentes situações.

Melissa Williams (1998:15-16) fala que existem grupos marginalizados imputados, ou seja, aqueles que sofrem com padrões de desigualdade estruturados de acordo com o pertencimento ao grupo, o qual não é experimentado como voluntário, nem como mutável, e que a cultura dominante atribui um sentido negativo à identidade do grupo (MIGUEL, 2005:30). Isso significa que tem há determinados grupos aos quais pertencemos que não escolhemos pertencer. Podemos pensar em raça como um exemplo irrefutável (ou quase).

Essa ideia de que a cultura dominante atribui um sentido negativo a determinados grupos, as vezes inclusive de forma patrocinada pelo Estado, remete à ideia de vulnerabilidade. Se eu não sou bem-vinda na minha própria sociedade, eu estou mais vulnerável às violências que ele pode cometer contra mim, por que, de certa forma, eu não pertenço.

É uma forma de injustiça, representada por condições desfavoráveis formadas por diversos elementos da socialização; elementos visuais, elementos de fala, de postura, de comportamento. A vulnerabilidade é uma condição de fragilização que se estabelece em função dos diversos estigmas que são decorrentes da própria socialização.

Vulnerabilidade está diretamente ligada a visibilidade

Para explicar isso, Bickford (1996:95), parte de uma descrição metafórica segundo a qual o mundo é uma realidade na qual todas as pessoas e todos os espaços estão envolvidos em névoa. Essa atmosfera tem sua espessura desigual, de forma que padrões específicos de correntes de vento e luz fazem com que algumas áreas fiquem mais nebulosas do que outras. A neblina afeta a forma como as pessoas agem e habitam a si mesmas. É importante ressaltar, para ela a névoa não é nem natural, nem fruto da criação de um gênio do mal, mas sim, um produto histórico que ecoa e ramifica-se no presente. Esta condição, como toda condição, não condiciona completamente as pessoas e pode, como qualquer processo, ser interrompido ou redirecionado pela ação humana.

As pessoas tem maior dificuldade de ver aquilo que é mais diferente, que está mais distante, que não tem luz, aquilo que não compreendem.

Em um mundo onde algumas pessoas estão mais cobertas de névoa e tem dificuldade em enxergar alguns espaços da atmosfera, em um mundo onde há diferenças que vulnerabilizam determinados grupos, a luta pela visibilidade é uma luta para deixar de ser vulnerável.

Por isso não faria sentido falar em visibilidade hétero, ou branca, por que quem precisa de visibilidade, é quem está vulnerável, quem está distante, quem está coberto de névoa espessa. Coberto, em parte, por que para a sociedade é feio ser quem ele é.

E cadê o político da teoria política?

Bickford acredita que a metáfora expressa a relação de atenção e expressão da sociedade (a névoa), é uma forma de entender como o ouvir representa um poder social.

As pensadoras feministas, de forma geral, afirmam que o racismo, o sexismo, a discriminação de classe e o heterossexismo são exemplos de forças que definem quem é ouvido, quando e como, de forma que aquilo que somos afeta quem somos e como isso se expressa na esfera pública, no espaço em que deliberamos como deve ser a política e o Estado.

Isso por que, principalmente, não é importante apenas quem fala, mas o que é dito e a forma como algo é dito. As vezes, a forma de dizer é relevante, pois revela determinadas identidades pessoais. Um exemplo disso são gírias, sotaques, construções consideradas gramaticamente incorretas, ou seja, a nossa comunicação tem interpretações socioculturais e é estratificada conforme nossos padrões sociais de dominação e subordinação.

Poderia dar qualquer exemplo corriqueiro, mas este caso histórico é muito representativo:

As mães de maio, em um determinado julgamento, entoavam um canto juntas. Quando o juiz pediu que se retirassem, pois já não se podia conduzir a sessão, deram os braços, para que uma não pudesse ser levada sem a outra, e continuaram com o canto.

Elas cantavam, por que não podiam ser ouvidas. E se fossem ouvidas?

Onde fica o discurso do sofrimento de uma mãe no meio do discurso racionalista de construção de uma política pública? Ele é meramente ilustrativo. “Veja, como sofre, por isso é importante nosso trabalho aqui”, vulgo, nosso trabalho sério, analítico, imparcial, ilustrado pela dor, pela perda, pelos problemas sociais. O próprio espaço da política, da deliberação pública racional, não consegue ser permeável àquelas que precisam ser ouvidas.

A racionalidade, a normatização da comunicação, as questões de ordem, elas privilegiam grupos já poderosos, grupos que já transitam no espaço, grupos não vulneráveis, grupos visíveis.

Bickford estuda, portanto, a fala. Ela leva em consideração a lógica gramatical e a elocução ou argumento, e o quanto a fala se aproxima da língua escrita, assim como a voz,  a disposição afetiva dos espaços a determinadas vozes, que é exatamente, por exemplo, a forma como o espaço político se pretende exacerbadamente racional e o enquadramento da fala, ou seja, se é afirmação, questionamento, etc.

Não se trata simplesmente da diversidade das formas como as coisas são ditas, mas a constatação de que há uma diferença entre normas comunicativas públicas e privadas. Há uma diferença de poder entre como as pessoas falam, e como as falas são ouvidas, em um espaço de construção e garantia de direitos, e em um espaço que se pretende democrático.

O público, o político, é um espaço de reprodução da desigualdade, o que reforça a medida na qual alguns grupos subalternizados tem normas culturais que se diferem daquela da cultura dominante, daquela cultura legítima no espaço legítimo de discussão da política legítima.

A retórica universal, a que cabe como norma, é monopolizada por determinados grupos, que valorizam e desvalorizam determinadas falas, e portanto nada tem de universal (e Young critica a neutralidade apontando na mesma direção).

Não ouvir, não ver alguém, é um poder muito eficiente.

Por isso clamamos por visibilidade. É ser vista, como agente social, que nos pode alçar a agentes políticos. É a partir daí que é possível clamar por direitos.

(…) perception has a particular character, shaped by the fact that humans are both situated in a particular physical, social and historical setting, and are subjects, creative forces not limited to what that setting prescribes (BICKFORD, 1996:21).

[A percepção tem um caráter particular moldado pelo fato de que seres humanos são, ao mesmo tempo, situados em um cenário físico, social e histórico, e sujeitos, forças criativas não limitadas ao que o cenário prescreve.]

Temos, portanto, o poder de perceber o outro, de ser criativo em enxergar além do que o cenário pretende mostrar. Quando grupos à margem pedem visibilidade, eles sabem que podem ser vistos, e que isso lhes dá poder ser ser quem são para além do espaço limitado ao privado, à sua individualidade, garantindo direitos e mera existência na agenda pública da sociedade.

 

Autoras e autor citados são:

Bickford, 1996, é The Dissonance of Democracy: Listening, Conflict and Citizenship, da Cornell University Press.

Miguel, 2005 é Teoria democrática atual: esboço de mapeamento da BIB.

Melissa Williams, 1998, é Voice, Trust and Memory, da Princeton University Press.

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