O Enem por outro modelo de educação

O Enem é uma das maiores provas de todo o mundo, é uma estrutura logística enorme, as provas chegam a alguns lugares de canoa. Tamanha sua grandeza, é grande também a dificuldade de fazer tudo com (pregoeiros amarão a palavra) celeridade. Seria assim, e é assim, para qualquer governo. É um projeto em constante aprimoramento.
Ainda, o Enem é a prova de inclusão social, a prova que te permite se candidatar para QUALQUER universidade do país, ainda que sem dinheiro para viajar aos quatro cantos. É o Brasil que queremos por que é o Brasil que inclui.
Posto isso, alguns esclarecimentos devem ser ditos. Primeiramente, as fotos dos cartões de resposta são uma falha muitíssimo pequena, isso por que, os cartões (nenhum dos quais preenchidos nas fotos que vi), são entregues bem antes da prova, e antes de guardarmos celulares, relógios e chaves nas bolsinhas de plástico para tal fim. Ainda assim, 21 pessoas já foram identificadas e serão eliminadas, por que a orientação era de não uso de eletrônicos dentro das salas. Mais uma vez, a equipe de investigação e de controle da prova é enorme, é uma operação conjunta que garante acesso ao ensino superior a, potencialmente, 7 milhões de pessoas. Potencialmente por que são “apenas” 1,5 milhão de vagas (e crescendo), e, para atender à demanda de ensino dos outros 5,5 milhões, temos pronatec, técnico concomitante, outras alternativas sendo pensadas e reformadas, etc.
Segundo ponto, o compartilhamento de fotos da prova com questões sobre a sanção do Mais Médicos (que foi terça agora) é de um sensacionalismo gigantesco. Isso por que a prova NÃO INCLUI nenhuma questão partidária (inclusive a questão sobre o MST tinha dois pontos de vista, um pró e um contra, por exemplo). O banco de questões do Enem é super variado e super complexo.
Isso me leva ao terceiro ponto, e mais importante que as picuinhas: as questões da prova. Fazendo (sim, eu fiz o Enem), eu achei as provas de humanas bastante difíceis. Mas muito, mas muito, interessante. Isso por que tinham textos de Descartes, Kant, Fustel de Coulanges, Aristóteles, Sennett (panóptico, meu povo!!!!), Maquiavel, Joaquim Nabuco e Marx. Mas não era só academicista…
Além disso, tinham questões com as temáticas de direitos das mulheres, patriarcado, LGBTs na política, Coroação do Rei Congo (uma festa popular de dimensões importantíssimas no interior do Brasil, de sincretismo religioso e reapropriação da cultura africana), MST, o acampamento dos indignados espanhóis, conflitos indígenas no Brasil, herança cultural africana, além de análise de imagens e crítica ao cinema hoolywoodiano no que ele retrata a África.
QUE DIVERSIDADE, e que complexidade!!! Meu pensamento durante a prova pairou bastante sobre como é requerido de um jovem de 17, 18 anos, transitar sobre temas tão distantes um do outro e por vezes tão densos.
É aí que o ENEM tem o seu maior mérito. Ele é uma prova que demanda interpretação de texto e capacidade crítica (inclusive, em muitas questões de física, química e biologia).
É a prova de uma escola que queremos. Uma escola que forme para a leitura, para o debate, para a crítica, para a reflexão, para a ampla capacidade cognitiva, para estar atento ao mundo ao seu redor.
Ainda acho que o Enem não atinge o seu máximo, pois temos as escolas que temos – que, na sua maioria, não formam para isso.
Mas ele é o propulsor de mudanças. É o que (re)dividirá nossa imensa e desnecessária carga disciplinar do ensino médio nas 4 áreas que tem, é o que fará repensarmos nosso modelo didático – e de material didático – enfim, o Enem é o primeiro de muitos passos para a inclusão e para uma nova educação.
Por uma educação que inclua história da áfrica, direitos das mulheres, reforma agrária, manifestações populares e lutas sociais no seio das discussões de nossos jovens – sem profetizar e catequizar, mas propondo ver o Brasil com outras lentes, sem linhas cronológicas e fórmulas e macetes de entendimento da realidade, mas nunca deixando de perguntar, e criticar com o propósito de entender e posicionar-se.
Por suplício, parem com o despropósito de desmerecer o desafio que temos pela frente e de compartilhar qualquer crítica infundada e improdutiva e vamos construir uma educação diferente.

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