Engole ou Cospe? e o sexismo das universidades

 

Passei no ENEM pro curso que eu queria. Não era difícil, mas também não tava super simples, e eu consegui entrar.

Acho que fiquei muito mais empolgada agora do que da primeira vez que passei na UnB, em parte por conhecer e entender o Sisu, respeitando o processo muito mais do que o tradicional Vestibular; em parte por estar menos desesperada quanto ao futuro e minhas escolhas; e em grande parte por estar me encontrando no caminho que acho desejável.

Assim, entrei na UnB novamente. Fui bem recebida pelos veteranos, que prontamente me procuraram no Facebook para me adicionar ao grupo de calouros (e me deram, inclusive, ótimas dicas sobre o curso). Pois bem, no grupo, o questionário para os calouros incluía perguntas típicas do universo universitário, como quem bebe, ou fuma (e o que?), e algumas mais íntimas como status de relacionamento e orientação sexual ou posição preferida do Kama Sutra.

Não vou entrar no mérito do meu julgamento ou aceitação desse universo universitário que se assemelha ás fraternidades americanas como as vemos nos filmes, o ponto é que o questionário acabava com a digníssima pergunta…. “Engole ou cospe?”

Entre essa pergunta e esse caso, é um passo.

Entre essa pergunta e a obrigação sexual das calouras, a linha é tênue.

O fato é que a pergunta é, no mínimo, sexista. Sexista por que, partindo do universo hegemônico das sexualidades cis e hétero, supõe-se que quem pode (, quem é autorizado socialmente a) responder a essa pergunta são as mulheres cis hétero (de preferência bonitas, aka, brancas e magras). Não sei dizer que estranhamento geraria um rapaz que respondesse à questão com seriedade, ou uma mulher gorda. Talvez “”apenas”” um monte de gente se perguntando: e daí o que VOCÊ faz?, quase como se desqualificasse o desejo sexual de alguém que não seja seu objeto de desejo sexual.

Bem, isso reforça meu temor em ficar para sempre nas universidades: elas são espaços que, ademais de todo o racismo e elitismo (que vem sido institucionalmente combatido com a nova forma de seleção das instituições de ensino superior), reproduzem todo o poder do Patriarcado. São professores e áreas que excluem as mulheres (e negras e negros, e trans), e, suprainstitucionalmente, são as mesmas cobranças quanto ao comportamento sexual e quanto à submissão/docilidade feminina.

É como a Lola já disse aqui:

“Com as mulheres, o trote faz a subjugação de quem já é subjugada pela sociedade.”

A pergunta pode parecer inofensiva e engraçada, mas ela é um abuso contra as mulheres, e uma manifestação do poder dos homens de ridicularizar o comportamento sexual feminino, ou, pior ainda, de se aproveitar violentamente dele.

Não acho que isso seja mais inaceitável em uma universidade por que é um ambiente de conhecimento, blablabla, por que não acho que a universidade é um ambiente de conhecimento – insira aqui qualquer discurso elitista sobre a educação superior ser mais importante que qualquer outra forma de ascensão social -, etc, ou que está em um pedestal no qual se torna maior absurdo a presença de todos os preconceitos sociais.

Ainda assim, a universidade, na conformidade dos nossos costumes e valores, é um primeiro passo para outros muitos passos em se tornar, de fato, alguém – ainda que isso pressuponha a adequação ao modelo do capital e do modelo elitista criticado preguiçosamente ali em cima.

Desse espaço de primeiras oportunidades ser excluído é extremamente sensível. Ser oprimido é igualmente trágico: especialmente quanto ao gênero, especialmente quanto ao seu comportamento que você, com seus 17-25 anos (sim, sou velha), está começando a entender – ou se já o entende totalmente, mas isso só diz respeito a você, e a quem VOCÊ convidar para festejar seu corpo.

De qualquer forma, que ninguém te sujeite a se expor, que ninguém te julgue se você decidir se expor, e que ninguém te coloque, em canto ou enquadramento nenhum, só por que você engole ou cospe. 

Advertisements

One comment

  1. Então, impressionante que o que o homem deseja de nós acabe sendo reprovado em alguns momentos. A separação entre a mulher pública e privada ainda é muito forte em nossa sociedade. A maioria dos homens sonha com uma mulher que engula e que faça um sexo anal. Mas até o linguajar usado dentro de um contexto informal como os palavrões utilizam esses termos como se fossem pejorativos. Vai entender essa sociedade doida!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: